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Sepultamento de William.

Imagens indeléveis de um cortejo, gravadas na mente dos jovens de Araci.

Por Gidalti Moura

sex, 03/02/2012 às 13:49

Por: Gidalti Moura

Também pudera!

Como entrar na igreja e entender que naquela urna fria e sem graça estava inerte para sempre o nosso William de cabelos aos anéis, sempre vestidos em roupas soltas, finas, sacudindo seu corpo leve de garoto pássaro com pouso certo nos corações dos velhos, moços e crianças?

Como entender que tantas vidas vão de zero a sessenta, disso a oitenta e outras vão até cem e as vezes como batiam os corações de Luciano e Zinha nem são pessoas como nosso William?

Foi assim que se sentiu o jovem deus épico Castro Alves quando sentia o se aproximar lento da morte que o levaria aos vinte e quatro anos e ainda vivo como um astro escreveu seu poema lírico “Mocidade e Morte” de seu livro Espumas Flutuantes que em seu nome dedico aos dezoito anos que William brilhou entre nós.

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma…
Nos seus beijos de fogo há tanta vida…
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer… quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem…
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh’alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas…

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: — impossível!
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n’alma

E o eco ao longe me repete — avante! —
o futuro… o futuro… no seu seio…
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após — um nome do universo n’alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

Morrer — é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,

– Voz da morte, que a morte lhe lamenta —
Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco
Da larva errante no sepulcro fundo.

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita…
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida – novo Tântalo —
O vinho do viver ante mim passa…
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O ‘stilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa…
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória  – nada, por amor — a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria…

 

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